Ludopatia na juventude: redação completa e comentada
19 de setembro de 2026
A palavra entrou no vocabulário do país em poucos meses. Ludopatia virou assunto de família, de escola e de CPI, e é candidata natural a uma proposta de redação.
O tema que vamos trabalhar aqui:
"Caminhos para combater a ludopatia na juventude."
Repare no comando: caminhos para combater. A proposta não pede só o diagnóstico do problema. Ela pede a saída — e isso muda o peso de cada parágrafo do seu texto.
O que é ludopatia, com precisão
Ludopatia é o nome popular do transtorno do jogo: a Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial da Saúde o reconhece entre os transtornos por comportamentos aditivos, ao lado da dependência de substâncias.
Duas consequências disso para a sua redação:
- Não é falta de força de vontade. Tratar o jovem que apostou como preguiçoso ou fraco é um erro de conteúdo, não só de tom: contradiz a classificação médica que você mesmo vai citar.
- Não é vício em games. O transtorno do jogo se refere a apostas com dinheiro. O vício em jogos eletrônicos é outra categoria. Misturar os dois é o deslize mais comum nesse tema, e ele aparece logo na primeira linha, quando o candidato escreve "vício digital" para falar de aposta.
O que o comando "caminhos" muda no seu texto
Em uma proposta de diagnóstico ("desafios para..."), os desenvolvimentos carregam o texto. Em uma proposta de solução, o desenho muda:
- a tese anuncia por onde passa a saída, não só qual é o problema;
- cada desenvolvimento explica o obstáculo que impede aquele caminho de funcionar hoje;
- a conclusão deixa de ser a última tarefa e passa a ser o destino do texto inteiro.
Continua valendo tudo que a matriz cobra em qualquer proposta. O que muda é para onde o texto aponta.
Os repertórios que sustentam esse tema
| Repertório | Onde encaixa |
|---|---|
| Constituição Federal, art. 227 | Dever da família, da sociedade e do Estado de assegurar, com absoluta prioridade, os direitos da criança e do adolescente. Serve para justificar por que o recorte é a juventude |
| Lei 14.790/2023 | Regulamentou as apostas de quota fixa no Brasil, proibiu a participação de menores de 18 anos e exigiu medidas de prevenção ao jogo compulsivo. Sustenta o argumento de lei que existe e não se cumpre |
| CID-11, da OMS | O transtorno do jogo classificado como comportamento aditivo. Desloca a discussão do campo moral para o da saúde pública |
| O Jogador, de Dostoiévski (1866) | O romance acompanha a ruína de um homem tomado pela aposta. Mostra que o problema não nasceu com o celular, o que ajuda a evitar o tom de pânico com a tecnologia |
Dois repertórios bem usados bastam. Se quiser um banco maior para temas de juventude, veja os 12 repertórios sobre saúde mental; para outro recorte da mesma lógica de plataformas, veja limites éticos da validação digital.
A redação completa
Caminhos para combater a ludopatia na juventude
Em O Jogador, romance de 1866, Dostoiévski acompanha a ruína de um homem que confunde sorte com solução. Quase dois séculos depois, a mesma promessa circula no celular de adolescentes brasileiros, empacotada em anúncios, patrocínios esportivos e notificações. Diante disso, combater a ludopatia na juventude exige avançar em duas frentes: a exposição publicitária que naturaliza a aposta e a ausência de atendimento especializado para quem já adoeceu.
Em primeiro lugar, a aposta chega ao jovem como entretenimento, e não como risco. Embora a Lei 14.790/2023 proíba a participação de menores de dezoito anos e exija das plataformas medidas de prevenção ao jogo compulsivo, a publicidade do setor ocupa camisas de times, estádios e transmissões esportivas, ambientes que o público adolescente acompanha diariamente. O mecanismo é a familiaridade: quanto mais a aposta aparece associada ao esporte e ao lazer, menor a percepção de que se trata de atividade de risco. Como consequência, a proibição legal não encontra respaldo na experiência cotidiana do adolescente, que vê o comportamento validado por ídolos e por colegas.
Somado a isso, quem desenvolve o transtorno encontra poucas portas de entrada no sistema de saúde. A Organização Mundial da Saúde classifica o transtorno do jogo como comportamento aditivo, o que situa o problema no campo do cuidado em saúde mental, e não no da falta de disciplina pessoal. Na prática, porém, o tema ainda é tratado como fracasso moral, e a vergonha adia a procura por ajuda. O resultado é um adoecimento que só se torna visível quando já produziu dívida, queda no rendimento escolar e ruptura familiar.
Portanto, para que a juventude brasileira seja protegida, cabe ao Ministério da Saúde, órgão responsável pela política nacional de saúde mental, ampliar o cuidado às dependências comportamentais na rede pública, por meio de equipes multiprofissionais nos Centros de Atenção Psicossocial e de campanhas escolares que expliquem como funcionam as apostas, a fim de que o jovem reconheça o risco antes da dívida e encontre acolhimento depois dela.
A anatomia, parágrafo por parágrafo
| Parágrafo | O que faz | Movimento que você pode copiar |
|---|---|---|
| Introdução | Repertório de abertura, ponte para o presente e tese com duas frentes | Começar pela referência e trazê-la ao Brasil de hoje em duas frases |
| D1 | Obstáculo 1: a lei existe, a publicidade a neutraliza | Lei citada, mecanismo explicado ("o mecanismo é a familiaridade"), consequência nomeada |
| D2 | Obstáculo 2: o estigma adia o cuidado | Classificação da OMS contra o senso comum moral, e o efeito disso na vida real |
| Conclusão | Intervenção completa em um período | Os cinco elementos encadeados, sem lista e sem repetir o que já foi dito |
Repare no encadeamento entre os dois desenvolvimentos: o primeiro trata de prevenção, o segundo de tratamento. Como o tema pede caminhos, a intervenção precisa responder aos dois, e é o que a conclusão faz ao juntar campanhas escolares e atendimento especializado.
Se a estrutura dos quatro parágrafos ainda não está clara, o modelo de redação parágrafo por parágrafo cobre o texto inteiro.
A conclusão desmontada
A competência 5 vale 200 pontos e é a que mais se perde por descuido. Veja o mesmo parágrafo com cada elemento etiquetado:
Portanto, para que a juventude brasileira seja protegida, cabe ao Ministério da Saúde (agente), órgão responsável pela política nacional de saúde mental (detalhamento), ampliar o cuidado às dependências comportamentais na rede pública (ação), por meio de equipes multiprofissionais nos Centros de Atenção Psicossocial e de campanhas escolares que expliquem como funcionam as apostas (meio ou modo), a fim de que o jovem reconheça o risco antes da dívida e encontre acolhimento depois dela (efeito ou finalidade).
Três observações que valem mais que a lista:
O detalhamento não é um elemento à parte. Ele se acopla a outro. Aqui explica quem é o agente; poderia igualmente detalhar a ação ou o público. O que a matriz cobra é que algum elemento venha aprofundado, não que exista uma sexta frase.
O meio é onde a proposta ganha ou perde. "Por meio de políticas públicas" não é meio, é enrolação. "Por meio de equipes multiprofissionais nos Centros de Atenção Psicossocial" é verificável: dá para imaginar a cena.
A finalidade precisa responder ao que você discutiu. Os dois desenvolvimentos falaram de prevenção e de cuidado, e a finalidade fecha nos dois: reconhecer o risco antes, encontrar acolhimento depois.
O erro de intervenção que quase ninguém percebe
Uma conclusão pode ter os cinco elementos e ainda assim ficar devendo. Veja esta:
Portanto, o Ministério da Saúde deve expandir o acolhimento psicológico voltado ao vício em apostas, por meio de alas de atendimento multidisciplinares nos postos de saúde, a fim de tratar a dependência provocada pelas apostas.
Está tudo lá: agente, ação, meio, finalidade. Mas ela só trata. Em um tema que pede caminhos para combater, uma proposta que age depois do adoecimento deixa a causa intacta — e o corretor lê isso como uma resposta parcial ao comando.
A correção é barata: some uma frente preventiva ao mesmo período, como a conclusão do texto acima faz com as campanhas escolares. Nada de parágrafo novo; uma oração a mais.
Quatro erros que derrubam essa redação
Chamar de "vício digital". Ludopatia é sobre aposta com dinheiro, não sobre tempo de tela. A imprecisão custa na competência 2.
Culpar apenas o jovem. Se o texto conclui que basta ter força de vontade, a proposta de intervenção fica sem função.
Propor proibir tudo. Além de desconsiderar que a atividade é regulamentada por lei, uma proposta inexequível enfraquece a C5.
Fazer terror com a tecnologia. O celular é o meio, não a causa. Dostoiévski está no texto justamente para lembrar que o problema é mais antigo que o aplicativo.
Perguntas frequentes
Ludopatia pode cair na redação do ENEM? É um tema plausível, porque reúne saúde pública, juventude, regulação e publicidade. Mas nenhum tema é confirmado antes da prova, e o ganho de estudar esse recorte está nos repertórios, que servem também a propostas sobre saúde mental dos jovens. Outros recortes prováveis estão na lista de temas que podem cair no ENEM 2026.
Qual a diferença entre ludopatia e vício em jogos eletrônicos? Ludopatia, ou transtorno do jogo, envolve apostas com dinheiro. O vício em jogos eletrônicos é uma categoria distinta na classificação da OMS. Em uma proposta sobre apostas, tratar os dois como sinônimos é fuga parcial do recorte.
Posso citar dados sobre quanto os brasileiros gastam em apostas? Só se tiver certeza da fonte e do número. Dado citado errado vale menos que argumento bem explicado, e existe repertório suficiente em lei e em classificação médica para sustentar o texto sem estatística.
Quantos elementos da proposta de intervenção são obrigatórios? Agente, ação, meio, finalidade e detalhamento. O detalhamento não precisa de frase própria: ele aprofunda um dos outros quatro.
A proposta de intervenção pode ocupar o parágrafo inteiro? Pode, e costuma ser o melhor uso da conclusão. O que não funciona é gastar metade do parágrafo resumindo o que já foi dito e espremer a intervenção nas duas últimas linhas.
Escreva a sua versão e compare
O texto acima é um caminho possível, não o único. Outro candidato poderia desenvolver a regulação da publicidade e a educação financeira e chegar a uma intervenção diferente, igualmente completa.
A pergunta que importa é se o seu texto fecha: se a tese anuncia, os desenvolvimentos explicam e a conclusão responde ao que foi discutido. A correção do Redação Nota Mil mostra isso separado por competência, com o trecho exato em que a ligação se soltou.
As 3 primeiras correções são grátis. Escreva sobre essa proposta e compare com o modelo deste post.