Repertório filosófico na redação do ENEM: Habermas e Kant na prática
19 de setembro de 2026
"Segundo o filósofo Jürgen Habermas, é preciso que haja diálogo na sociedade."
Essa frase aparece em milhares de redações todo ano e não sustenta nada. Ela cita um filósofo, mas pode ser apagada sem que o parágrafo perca uma vírgula. É isso que o corretor enxerga.
O problema não é Habermas. É que o nome entrou no lugar do argumento, em vez de entrar a serviço dele.
Aqui o caminho é o inverso: dois filósofos aplicados a um tema real, do começo ao fim, com cada frase escrita em duas versões, a que enfeita e a que trabalha.
O que a competência 2 cobra de verdade
A C2 avalia se você compreendeu a proposta e se aplicou conceitos de várias áreas do conhecimento para desenvolver o tema. A palavra que aparece na descrição do nível mais alto da matriz é produtivo: repertório sociocultural produtivo.
Produtivo quer dizer usado a favor do argumento. Quantidade de referências e fama do autor não entram na conta.
Duas consequências práticas disso:
- Filósofo não é obrigatório. Uma lei, um dado do IBGE, um filme ou um fato histórico valem o mesmo. O que muda é o encaixe. Se você quer um banco de referências versáteis, veja os 20 repertórios coringa.
- Filósofo mal usado pode custar mais do que não usar. Uma ideia distorcida ou uma citação inventada aparecem rápido para quem corrige.
Se você ainda tem dúvida sobre o que cada competência avalia, o guia da redação do ENEM cobre as cinco.
O tema que vamos usar como laboratório
Para não ficar no abstrato, todo o post trabalha uma proposta só:
"Desafios para a inclusão produtiva de pessoas com autismo no mercado de trabalho brasileiro."
É um recorte plausível e difícil: quase todo mundo escreve "as empresas precisam respeitar as diferenças" e para por aí. É justamente onde um conceito filosófico bem aplicado abre distância.
(Se o assunto for novo para você, o post sobre neurodiversidade na redação dá o panorama e os repertórios jurídicos. Aqui o foco é outro: como o repertório filosófico entra.)
Habermas: quando a inclusão é decidida sem o incluído
A ideia em uma frase
Em Teoria do Agir Comunicativo (1981), Habermas separa duas formas de agir. No agir estratégico, eu trato o outro como meio para um objetivo que já defini sozinho. No agir comunicativo, o objetivo se constrói no entendimento entre os envolvidos, com argumentos que todos possam aceitar.
Guarde essa distinção. Ela é tudo o que você precisa saber para usar Habermas bem.
Por que ela serve neste tema
Repare em como a inclusão costuma ser desenhada: o RH define o formato da entrevista, define o que é "perfil de comunicação adequado", define qual adaptação a empresa oferece. A pessoa autista entra em um processo construído inteiramente sem ela.
Isso é agir estratégico vestido de inclusão. E é contra isso que o movimento das pessoas com deficiência levantou o lema "nada sobre nós sem nós", que marcou a elaboração da Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência.
Habermas dá o nome técnico do problema. O lema dá a formulação popular dele. Os dois no mesmo parágrafo são repertório de sobra.
A frase que enfeita
"Segundo Jürgen Habermas, o diálogo é essencial para a sociedade. Dessa forma, as empresas precisam incluir pessoas autistas."
Por que não conta: o filósofo diz uma banalidade e a conclusão não vem dele. Apague a primeira frase e o parágrafo continua igual.
A frase que trabalha
"O que Habermas chama de agir comunicativo — a decisão construída no entendimento entre os envolvidos — é o que falta nos programas de contratação de pessoas autistas: o formato da entrevista, o ambiente e as adaptações são definidos por gestores que nunca consultaram quem será contratado. A empresa age sobre o candidato, e não com ele, e o resultado é uma inclusão que cumpre a meta sem atender à necessidade."
Por que conta: o conceito nomeia o problema, e a frase seguinte depende dele. Tire Habermas dali e o parágrafo desmonta.
Onde encaixar: primeiro parágrafo de desenvolvimento. É um diagnóstico de como a exclusão acontece.
Kant: a pessoa como fim, nunca como cota
O Kant que você deve evitar aqui
O Kant mais citado em redação é o de Resposta à pergunta: o que é o Esclarecimento? (1784), com a ideia de saída da menoridade.
Cuidado: nesse texto, a menoridade é auto-imposta. Kant diz com todas as letras que a causa não está na falta de entendimento, mas na falta de decisão e coragem para usá-lo. Aplicada a uma pessoa autista excluída do mercado de trabalho, a ideia escorrega para "a culpa é de quem não teve coragem".
Não é o que você quer defender, e quem conhece o texto vê a distorção.
O Kant que encaixa
Em Fundamentação da Metafísica dos Costumes (1785), Kant formula o imperativo categórico de um modo que serve direto a esse tema: agir de maneira a tratar a humanidade, na sua pessoa e na de qualquer outro, sempre como fim e nunca apenas como meio.
No mesmo texto vem a distinção entre preço e dignidade: o que tem preço pode ser substituído por um equivalente; o que tem dignidade não admite equivalente.
Como isso vira argumento
Existe uma diferença concreta entre duas empresas:
- a que contrata uma pessoa autista para não pagar multa por descumprir a cota. Ali a pessoa é meio: um número que resolve um problema da empresa;
- a que revisa o processo seletivo e o ambiente para que aquela pessoa trabalhe bem. Ali a pessoa é fim.
A lei permite as duas. A distinção kantiana é o que te deixa dizer, com precisão, por que a primeira não é inclusão.
A frase que enfeita
"Como afirmava Kant, todo ser humano possui dignidade. Portanto, as pessoas com autismo merecem respeito."
A frase que trabalha
"A cota legal garante a vaga, mas não define o que acontece depois dela: contratar para evitar a multa é usar o trabalhador autista como meio para um número, na formulação de Kant, e não como fim em si mesmo. Enquanto a inclusão for medida por percentual cumprido, e não por permanência e desenvolvimento profissional, a empresa terá atendido à lei sem tocar na barreira que produziu a exclusão."
Onde encaixar: segundo parágrafo de desenvolvimento, ou a conclusão. Kant funciona bem como o princípio que orienta a solução.
Por que os dois juntos funcionam
A divisão de tarefas entre os dois é o que faz o par render:
| O que o conceito faz | Onde vai | |
|---|---|---|
| Habermas | Mostra como a exclusão se produz: a decisão é tomada sem quem ela afeta | Desenvolvimento 1 |
| Kant | Mostra por que isso é grave: a pessoa vira instrumento de uma meta | Desenvolvimento 2 |
Um diagnostica o mecanismo, o outro nomeia o princípio violado.
Não empilhe os dois no mesmo parágrafo. Duas referências disputando cinco linhas significa que nenhuma delas foi explicada.
O esqueleto aplicado a essa proposta
Tese (final da introdução):
"A inclusão de pessoas autistas no mercado de trabalho brasileiro esbarra em dois obstáculos: processos seletivos desenhados sem a participação de quem se pretende incluir e uma lógica de contratação que mede o resultado em cotas preenchidas, não em permanência."
Desenvolvimento 1: o processo decidido sem o incluído (Habermas + "nada sobre nós sem nós").
Desenvolvimento 2: a pessoa como meio (Kant + a cota da Lei 8.213/1991, que alcança pessoas autistas porque a Lei 12.764/2012 as equipara a pessoas com deficiência para todos os efeitos legais).
Proposta de intervenção: o Ministério do Trabalho e Emprego, em parceria com organizações de pessoas autistas, pode criar um protocolo de adaptação de processos seletivos e ambientes de trabalho, formulado com a participação dessas organizações, divulgado às empresas obrigadas à cota, a fim de que a contratação se converta em permanência.
Repare que a intervenção fecha com Habermas: quem estava fora da decisão passa a participar dela. A estrutura completa, parágrafo por parágrafo, está no modelo de redação.
O teste dos três sinais
Antes de deixar uma citação no texto, faça estas três perguntas:
- Dá para apagar a citação e o parágrafo continuar igual? Se dá, era enfeite.
- Você consegue explicar a ideia em uma frase, sem usar o nome do autor? Se não consegue, você decorou uma frase de efeito, não um conceito.
- A frase seguinte depende dela? Repertório produtivo é aquele que a próxima frase usa.
Quatro erros que aparecem toda semana
Citação inventada. Frases que circulam na internet atribuídas a Bauman, Kant ou Sócrates com frequência não são deles. Se você não tem certeza da autoria, escreva a ideia sem atribuir a ninguém. Ela continua valendo como argumento e você não corre risco.
Nome sem ideia. "Segundo Habermas...", seguido de uma frase que qualquer pessoa diria. O nome não faz o trabalho sozinho.
Três filósofos no mesmo texto. Vira desfile. Um por parágrafo de desenvolvimento, explorado até o fim, rende mais.
Filósofo que não bate com a tese. Escolher o conceito antes de escolher o argumento é o caminho mais rápido para forçar a conexão. E forçar sempre aparece no texto.
Levando o combo para outros temas
Os dois conceitos são versáteis porque descrevem relações, não assuntos:
| Tema | Conceito que serve |
|---|---|
| Fake news e desinformação | Agir comunicativo: o debate público tomado por interesses estratégicos |
| Saúde mental dos jovens | Kant: a pessoa tratada como meio de produtividade |
| Cyberbullying | Kant: a humanidade na pessoa do outro |
| Educação inclusiva, acessibilidade, políticas públicas | Os dois, na mesma divisão de tarefas deste post |
O mesmo método vale para repertório que não é filosófico: o post sobre valorização dos professores aplica essa lógica ao conceito de cidadão de papel, de Gilberto Dimenstein.
Perguntas frequentes
Preciso citar um filósofo para tirar nota alta na redação do ENEM? Não. A competência 2 pede repertório sociocultural produtivo, e uma lei, um dado estatístico, um filme ou um fato histórico cumprem esse papel igualmente. O que conta é o uso a favor do argumento, não a origem da referência.
Posso citar um filósofo sem lembrar o nome da obra? Pode. A ideia aplicada corretamente é o que pontua. O risco está no contrário: inventar título ou ano para parecer mais preciso e errar.
E se eu não tiver certeza de que a frase é daquele autor? Não atribua. Escreva a ideia como parte do seu raciocínio ou troque por um repertório do qual você tem certeza. Citação falsa não rende ponto e enfraquece o texto.
Quantos repertórios devo usar em uma redação? Em geral um por parágrafo de desenvolvimento, bem explorado. Dois mal explicados valem menos que um usado até o fim.
Habermas e Kant servem para qualquer tema? Não. Eles servem para temas em que alguém decide pelo outro ou em que uma pessoa é tratada como instrumento. Forçar esses conceitos em um tema de outra natureza produz exatamente o enfeite que este post ensina a evitar.
Teste o seu repertório antes da prova
A forma mais rápida de descobrir se a sua citação está trabalhando ou enfeitando é escrever o parágrafo e receber a análise da C2: não um "melhore o repertório", mas o trecho exato em que a referência ficou solta.
É isso que a correção do Redação Nota Mil devolve, competência por competência.
As 3 primeiras correções são grátis. Escreva sobre essa proposta e veja onde o seu Habermas está parado.